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Um acarajé para quem chega e para quem vai

Publicado em: 27/09/2019
Por: Adilson Fonsêca


A primeira coisa que o turista que chega a Salvador encontra pela frente é uma baiana tradicionalmente vestida e com fitinhas do Bonfim, que são amarradas no pulso e com três nós, a pessoa faz um pedido. Mas ao fundo desse cerimonial de boas-vindas, o cheiro do acarajé frito no azeite de dendê, chama a atenção e aguça o apetite dessa que é a iguaria mais tradicional e famosa da Bahia, o seu maior patrimônio da ancestralidade, pois não expressa apenas a gastronomia, mas a história de um povo que se formou ao longo da própria história do País.

De herança africana, trazida pelos antigos escravos, o bolinho de feijão fradinho preparado de maneira artesanal, na qual o feijão é moído, temperado e posteriormente frito no azeite de dendê fervente, está em todos os cantos, ladeiras e sítios históricos de Salvador. Essa mistura culinária dos antigos escravos ganhou o toque baiano, com uma dose de alegria e ancestralidade, e se tornou o cartão portal da capital baiana.

Antes apenas oferenda aos orixás, servido puro, o acarajé atual ganhou recheios, que podem ser a pimenta, o vatapá, o caruru, o camarão seco e salada. Além de alimento e sustento para várias famílias, tem um importante caráter simbólico. É originário do Golfo do Benim, na África Ocidental (lá chamado acará), tendo sido trazido para o Brasil com a vinda de pessoas escravizadas dessa região.

No início, todas as pessoas que produziam e comercializavam o acarajé eram iniciadas no candomblé, numa prática restrita a mulheres, em geral Filhas de Santo dedicadas ao culto de Xangô e Oiá (Iansã). Para cumprir suas “obrigações” com os orixás, durante o período colonial, as negras libertas ou negras de ganho preparavam os quitutes e saíam às ruas de noite para vendê-los, dando origem a esse costume. Até hoje, a grande maioria das baianas vai para a rua só a partir das 17h.

As Baianas de Acarajé são Patrimônio Cultural do Brasil e em Salvador ganhou o Memorial das Baianas de Acarajé. registrado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional do Ministério da Cultura (Iphan/MinC) como Patrimônio Cultural do Brasil. É um espaço público com espaços expositivos e de documentação, onde estão, adereços, artesanatos e alguns instrumentos gastronômicos utilizados pelas Baianas de Acarajé.

As mais famosas – O ponto da baiana é licenciado na Prefeitura, então não se pode vender para uma outra pessoa, sendo passado de mãe para filha. Mas mesmo antes de toda a legalização do ofício, já era tradição o tabuleiro passar para algum familiar. Duas baianas são exemplos. Dinha, no Rio Vermelho e Tânia Bárbara Neri, no Farol da Barra.

Dinha ficou conhecida que acabou, de forma in formal, dando o nome ao largo defronte à Igreja de Nossa Senhora Santana, no Rio Vermelho, onde sempre foi sua barraca, que ficou conhecido como Largo da Dinha. O ponto foi o primeiro do gênero estabelecido no bairro, pela avó da baiana, a cozinheira Ubaldina de Assis, há quase 70 anos. Dinha faleceu em 2008 e a sucessora foi sua filha, Cláudia de Assis.

Recentemente, foi o caso de Tânia Bárbara Neri, baiana conhecida que ficava bem de frente ao Farol da Barra. Tânia faleceu no começo de novembro de 2018. Quem assumiu foram os dois filhos, Ana Cássia e Anderson. Nesse caso, já é a quinta geração, tendo sido a bisavó baiana de acarajé, a avó, a mãe e a própria Tânia. Agora, seus filhos se tornaram também, e a sua neta, aos 7 anos, já está sendo preparada.

Acarajé da Dinha – R. João Gomes, 25 – Rio Vermelho, Salvador – BA, 41950-640. Aberto todos os dias. Segunda a quarta, das 17h às 22h. Quinta e sexta, das 17h à 00h. Sábado e domingo, das 11h às 22h.

Acarajé do Farol (Tânia Bárbara Neri). – Em frente ao Farol da Barra. 206, R. do Gavaza, 24 – Barra, Salvador – BA, 40140-650

Cira – Com 50 anos à frente de seu tabuleiro, já foi considerada mais de 10 vezes o melhore acarajé de Salvador. Ela está por alguns endereços na cidade, os dois mais conhecidos são no Largo da Mariquita, no Rio Vermelho e o outro na praça que segue para a Lagoa do Abaeté, em Itapuã. Além de acarajé e abará, as cocadas são deliciosas.

Acarajé da Cira – Largo da Mariquita – Rio Vermelho, Salvador – BA, 41940-426. De segunda a sexta, das 15h às 22h. Sábado, das 14h à 00h. Domingo, das 14h às 22h30. Itapuã – Rua Aristides Milton, s/nº (em frente à Ladeira do Abaeté), Itapuã. Não tem telefone. 10h/22h30 (sex. e sáb. até 23h30).

Acarajé da Regina – Com ponto fixo no Rio Vermelho há mais de 30 anos e outro na Graça, Regina dos Santos Conceição, além do acarajé, é conhecida por um dos melhores abarás da cidade. No seu tabuleiro, os clientes fãs de doce encontram também cocada de coco branco, coco queimado e amendoim, além de bolinho de estudante. Largo de Santana, s/nº, Rio Vermelho, Telefone: 3232-7542. 15h/22h (sáb., dom. e feriados 10h30/20h); Rua da Graça, s/nº, em frente ao Colégio Sartre, Graça. Qui. e sex., 16h/21h30. Aberto em 1979.

Glorinha – Esta é o exemplo de baiana que vira amiga dos moradores. É constante ter alguém contando da vida, sentadinho ao lado dela, enquanto come seu acarajé. Com quase 30 anos de Rio Vermelho, praticamente conhece os clientes pelo nome, mas não dá ousadia para ninguém não. Tem no seu tabuleiro frases engraçadas como: “Fiado apenas para maiores de 90 anos, acompanhados dos pais”.

Acarajé da Glorinha – Rua Almirante Barroso, S/N, Rio Vermelho, Salvador, Bahia. Fica próximo à esquina com a Cardeal da Silva. De terça a domingo, das 17h às 22h.

Acarajé Dária e Laura – Há três décadas vendendo acarajé, também vende bolinho de estudante, cocada e passarinha. Rua dos Maçons, s/nº, esquina do Redemix Supermercado, Pituba, 3461-1452. 17h/21h (fecha dom.). Aberto em 1986.

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