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Na terra de Caymmi, as Ganhadeiras de Itapuã mostram porque a Bahia é magia.

Publicado em: 12/03/2020
Por: Adilson Fonseca


Em Itapuã tem uma lagoa escura arrodeada de areia branca. Tem uma praia inigualável no litoral de Salvador. Tem poesia e música que inspiraram Caymmi e vários outros artistas. Tem o maior carnaval de rua do mundo. Tem sincretismo religioso, samba de roda e capoeira. E um jeito único de ser. Mas tem também o gingado, a saia rodada e as vozes doces e fortes das Ganhadeiras de Itapuã, um grupo de mulheres criado em 2004 e que foi a sensação do Carnaval no Rio de Janeiro deste ano.
A Bahia, Salvador em especial, que sempre marcou a sua história com arte e, música, dança e religiosidade, mais uma vez ganhou projeção nacional, não apenas com o carnaval de rua, considerado a maior festa do planeta, mas também com o carnaval-show do Rio de Janeiro, mostrando que além das belezas naturais, essa terra que revelou Caymmi, Vinicius, Caetano, Gil e tantos outros, tem sempre um algo mais para mostrar.


E foi ali, na beira da Lagoa do Abaeté, sob o sol, das manhãs e das tardes de Salvador, que um grupo de mulheres dava alegria ao ato de lavar roupa, a chamada “roupa de ganho”, cantando suas mazelas e alegrias, que acabaram ganhando ritmo e virando samba. Essas mulheres, com enormes saias rodadas e coloridas, costumavam subir o morro de areia (dunas) para no alto, aproveitando a fresca brisa que vinha do mar, estender as roupas lavadas.
E tudo isso, muito mais que um folclore, onde tudo se transforma na Bahia, acabou também virando o enredo da Escola de Samba Viradouro, campeã do Carnaval do Rio de Janeiro de 2020. O enredo “Viradouro de alma lavada” contou, de forma musicada, a história das Ganhadeiras de Itapuã, a quinta geração de mulheres da época da escravidão, que lavavam roupa na Lagoa do Abaeté e que faziam outros serviços em Salvador com o objetivo de obter recursos para a compra de suas alforrias.


Com influências dos ritmos, o samba da Viradouro misturou o gingado do afoxé, um dos principais ritmos baianos, rico nos batuques e na melodia. E trouxe para a Marques de Sapucaí, para delírio de milhões de brasileiros, um pouco de baianidade, como as cocadas, feitas à base de coco seco, distribuídas para o para o público, pelas baianas que representaram as quituteiras.  E entre saias rodas e bordadas com figuras de abará, tapioca e acarajé, a escola ia contando, em música, as atividades que as Ganhadeiras exerciam: lavar roupa, carregar e vender água, cozinhar e vender alimentos, costurar, vender bugigangas etc.
Essas mulheres foram exaltadas no desfile como as “primeiras feministas do Brasil”, pela força que tiveram para ir atrás da liberdade e pela importância para a cultura da Bahia. E para fechar, nada menos que uma mulher negra, ícone da baianidade: a cantora Margareth Menezes, que desfilou como destaque do carro que lembrou as cirandas de roda à beira do mar aberto, uma contribuição das Ganhadeiras à música baiana.


Uma história vida
As Ganhadeiras de Itapuã fizeram e ainda fazem parte da  história de Salvador e da Bahia.  São referências da luta das mulheres, desde o século XIX e início do século XX, com as “lavagem de ganho” (lavando roupas), ou como vendedoras, que saiam com seus balaios a pé para vender peixe e quitutes pela cidade, e assim ganhar o sustento da família.
As Ganhadeiras de Itapuã se formou graças às mulheres guerreiras que se reuniam para conversar sobre as antigas tradições de Itapuã, cantar e dançar samba de roda. Em 2004, os grupo tomou forma e hoje conta a história de Salvador, e do Brasil, em forma de cantigas e sambas.
A iniciativa cultural surgiu nas casas de Dona Cabocla e de Dona Mariinha. Dona Cabocla faleceu, mas Dona Mariinha permanece e hoje vê a neta e a bisneta participando do grupo. A antiga e a nova geração comprometidas para o fortalecimento da identidade cultural de Itapuã e no cuidado desse resgate das memórias afetivas de cada uma, buscando as canções, os momentos do passado para fazer um repertório.
Desde que começou, o grupo já recebeu diversos prêmios, entre eles o Prêmio Culturas Populares – Mestre Duda 100 Anos de Frevo – Concedido pelo Ministério da Cultura (SID). Foi reconhecido como iniciativa exemplar, no âmbito das Culturas Populares do Brasil. Teve 3 indicações do Prêmio Música Popular Brasileira e ganharam dois deles. Em 2016, participaram do encerramento dos Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro, em um show junto com Mariene de Castro.
No Rio de Janeiro, participaram do Festival Back to Black onde também se apresentaram Alcione e Gilberto Gil, Festival Vila Lobos, no Teatro Tom Jobim, e em Salvador, do 20º PercPan. Também fizeram apresentações nos shows de Caetano Veloso, Maria Bethânia e Nós Os Tincoãs com Mateus Aleluia. Elas se preparam agora para gravarem um DVD no edital da Natura Musical, onde sete grupos da Bahia foram contemplados.
O grupo conta com a participação de 17 senhoras (Cantadeiras, Ganhadeiras, Lavadeiras) que com suas vozes de tom muito peculiar encantam os ouvintes a cada apresentação realizada. Ainda 10 crianças, seis músicos que tocam instrumentos de corda e percussão.

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